Dois franceses e um desejo

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Dois franceses de bermuda chegam à banquinha acompanhados de Maria Inez Joo, guia de turismo. Estão de volta a Brasília e desta vez vieram para mirar com mais cuidado os blocos residenciais da 308. Clement Dirie, historiador de arte, e Julien Eymeri, editor de publicações de arquitetura, estão namorando os apartamentos da quadra-modelo. Estudam a possibilidade de comprar um deles. Não pensam em trocar Paris por Brasília, mas querem ter um imóvel na superquadra de Lucio Costa. Algo como ter uma obra de arte na parede da sala. Só que do outro lado do oceano, de concreto e vidro, pendurada em pilotis, rodeada de gordas copas de árvores, envolvida em volteios de passarinhos.

As superquadras são uma experiência urbana que ainda não se realizou em sua inteireza, como se os brasilienses ainda não estivessem preparados para ela. Ou os brasileiros ou os franceses ou os gregos. É como se o urbanista, ao projetar o conjunto de moradias, equipamentos urbanos, parques, jardins, calçadas, tivesse inventado o mundo para os homens que ainda teriam de ser inventados – ou melhorados. Não sou eu quem digo, embora concorde. São os dois franceses, em livre tradução da Maria Inez. Superquadras para um futuro que talvez não se realize. Uma miragem perfurada de cobogós.

Peço uma foto. Um deles põe a mão no ombro do outro e diz que é um tipo de pose que não fariam em Paris. Se é para ser utópico que seja por completo. Há um desejo idílico de deixar um apartamento sempre à espera do casal. Compram livros e camisetas alusivas a Brasília e se despedem com largos e límpidos sorrisos. Em breve, voltarão.

Pornocrônica

Desde que cheguei à banca não se vendeu mais nenhum exemplar das revistas e dvds pornográficos. Não por eventual ataque de moralismo da jornaleira. Talvez por constrangimento dos clientes.

Pra quem não conhece, banca vende revista em consignação. Devolve o que não foi vendido. É um trabalho miúdo, chato e importantíssimo o da devolução do que ficou encalhado. Não devolveu, pagou.

Na semana passada, sumiram dois exemplares do Guia do Orgasmo Feminino. Dele e só dele. Se eu soubesse que eram objeto de desejo, tinha exposto as obras em lugar de mais fácil acesso.

Para não constranger os senhores, as senhoras e as crianças que frequentam a banca, os títulos picantes ficam no ponto mais alto da prateleira, num canto onde só os olharem mais desejosos conseguem alcançar.

(Pornoparênteses para alguns dos títulos: Alucinada por frango assado, Traveca na escadaria do prédio e O importante é botar na urna são alguns dos títulos disponíveis. Seriam pornográficos, não fossem bisonhos.)

Na respeitável banquinha da 308, o que mais se vende são palavras cruzadas, seguidas de revistas de celebridades. Fico pensando que, quando não houver nem títulos safados nas bancas, haverá palavras cruzadas. É o papel para além da leitura. Há um jogo lúdico que envolve o tato e a escrita, a caneta e o papel, o raciocínio e a abstração do manuscrito que talvez deem mais longevidade aos impressos.

Já tentou fazer cruzadas online? Parece uma viagem do nada a lugar nenhum. É onde o virtual se realiza no que de mais vazio ele tem. Como o Sexo tecnológico, título de uma das matérias pornôs.

E se os adultos fazem de conta que não veem as revistas pornográficas, as crianças tiram proveito. Dois meninos, de aproximados sete anos, chegam à banca com o pai, compram chiclete, folheiam gibis, mangás e revistas de games. Pouco antes de sair, um deles cutuca o outro e lança o olhar para as publicações proibidas. Gargalham. Entram no carro e pedem, já longe da senhora jornaleira: Pai, compra a revista da mulher com a bunda de fora! Mais gargalhadas.

 

 

 

Joffre e Daniela

Enquanto escrevia este texto, uma mocinha de nome Daniela, estudante de design gráfico, entra na banca, compra um sorvete, o “Estou na quadra”, livro da Fátima Bueno, e puxa assunto. Diz que morava em Taguatinga, mas que o sonho dela sempre foi vir para o Plano Piloto. Foi para o Cruzeiro e de lá para a Asa Sul. Vai a pé para o trabalho e ama esta cidade. “Por que as pessoas não entendem por que a gente gosta de Brasília?”, ela me pergunta.

Difícil de responder. É mais fácil e produtivo contar histórias de quem construiu esta cidade, como a que se segue:

Era noite e doía muito. O engenheiro Joffre Mozart Parada tinha uma tarefa inesperada, precisava abrir uma picada para chegar ao lugar onde, a partir de então, seria o território dos mortos.  Com a luz dos faróis do jipe, o goiano de Vianópolis delimitou o Campo da Esperança e traçou uma trilha que levava do aeroporto à ponta sul da Asa Sul.

Estava demarcado o lugar onde seria sepultado o corpo de Bernardo Sayão, amigo de Joffre, parceiros desde de antes de Juscelino tomar para si a decisão de construir Brasília. Ainda no começo dos anos 1950, Joffre já escalavrava  as terras goianas na condição de chefe do Serviço de Conservação e Melhoramento das Estradas do Estado de Goiás.

A estrada, rio seco que conduz a eterna busca por um outro lugar, a estrada movia os dois homens, Sayão e Joffre. Mais que a cidade, talvez. Mais que Brasília, quem sabe. Eram engenheiros-andarilhos, o primeiro mais inquieto, mais bandeirante; o segundo, mais interessado em decifrar a geologia dos novos lugares.

De Bernardo Sayão, muito se sabe. De Joffre, quase nada, embora o nada seja demasiado. Foi ele quem pôs no chão o projeto de Lucio Costa. Antes e mais que isso: ele esquadrinhou as fazendas do quadradinho e conseguiu delimitar cada uma delas, partindo de referências vagas e documentações dúbias.

Esse é o personagem das 548 páginas de “Uma luz na história”, livro de Nina Tubino lançado recentemente e disponível na Banca 308.  Foram 25 anos de pesquisa – desde a tarde de domingo em que a autora visitou o túmulo de Joffre, no Campo da Esperança que ele havia demarcado, e prometeu tirar o engenheiro do esquecimento.

Nina cumpre o prometido. Mostra que Joffre identificou as fazendas a serem desapropriadas para a construção da nova capital, demarcou o Plano Piloto, o Núcleo Bandeirante, marcou os furos para sondagens da barragem do Paranoá, identificou os locais onde havia jazidas de material de construção, locou  os primeiros acampamentos da Novacap. E ainda se aventurou em arqueologia: reuniu fósseis encontrados numa fazenda em Sítio d’Abadia, município goiano a 240 km de Brasília e os enviou ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), supondo serem de um megatério, a preguiça gigante que habitou as Américas há aproximados 20 mil anos.

O livro de Nina traz um mapa em página dupla, interiça, colorida. É o que ela considera o primeiro mapa do Distrito Federal já com as fazendas demarcadas.  De 1958, tem a assinatura de Joffre e de Janusz Gerulewicz.

 

 

Jack London e a 308

 

Entra um espanhol na banca. Terá algo próximo aos 80 anos. Usa suspensório e bengala. Percorre com os olhos o pequeno espaço, pega, abre e paga um salgadinho de criança, pergunta se sou a nova dona do lugar, diz que chegou a Brasília em 1957 e se despede. Já a caminho da 108, onde mora, volta e comenta: “A bengala é só charme”.

A tragédia ambiental de Mariana, a omissão do Estado, o cinismo da Vale, os ataques a Paris, a guerra mundial contra o pior que há nos homens, tudo parece em suspenso. Embora, que ironia, esteja numa banca de revista, não serão as publicações em papel que me darão notícias do mundo de lá.

De Mariana e de Paris escorrem lama, sangue e medo. E a esquina da entrada da 308 é uma maresia real. Só dói quando entro nas redes e nos onlines. Na banca, é tudo tão miudamente cotidiano que perco a dimensão das tragédias desses tempos terríveis.

Diria Clarice que estou numa doce prisão ao ar livre. Doce prisão – embora o Doce tenha sido devorado pela lama que já chega ao mar.

Tenho meu exato tamanho. Estou na esquina, no vértice de um ângulo de 90 graus, numa calçada larga e plácida por onde a vida passa no feitiço do tempo. Estamos em 2015, mas também estou no finzinho dos anos 50 e começo dos 60.

Estou rodeada de Lucio, mas também de adolescentes, estudantes das escolas próximas, públicas e particulares, que fazem da 308 a calçada do melhor tempo de suas vidas. Descem de skate em frente a banca, penduram-se nas árvores tortas da Praça do Cogumelo, sentam-se no chão dos pilotis – ainda se namora nos pilotis!

Sempre teremos as superquadras.

Longe de ser uma utopia realizada, até porque elas não se realizam. As superquadras são o futuro do passado. Elas ainda são projeções de um modo de vida que não se realizou plenamente.

Os terroristas querem destruir a alegria, o bem viver. As mineradoras continuam querendo devorar a Terra, toda ela; e o Estado continua fazendo de conta que existe.

Na banquinha os dias são menos amargos.  Talvez seja porque a rotina do ir e vir se impõe sobre os grandes acontecimentos.  Ainda sou jornalista, mas aqui sou mais balconista, recepcionista, contabilista, carregadora, compradora, varredora, limpadora, observadora, escutadora. Sou muitas outras, tantas que nem sabia que era.

Outro cliente, morador da quadra, me dá conselhos, me alerta para os demasiados riscos de ser empreendedora. Teme que eu esteja iludida – “Você não acha que isso aqui dá dinheiro, né, Conceição?”. Me alerta para 0 pendura: “Fiado quebra o comércio”.

Nesta sexta, foi adiante: “Li a matéria sobre você e a banca. Você parece magoada com o jornal onde trabalhava”, e prossegue antes que eu possa dizer algo: “Deixa eu te dizer uma coisa: mágoa não te leva a lugar nenhum”. Os olhos dele se enchem de água, e ele vai embora.

Os meus também ficam rasos d´água. Me investigo e tenho vontade de chamar o novo amigo de volta: “Não queira demais de mim. E se sua mulher te deixasse depois de 20 anos de casamento? A mágoa é inevitável, humana”. Depois passa, e tudo se ajeita.

Não é a mágoa que me move, meu querido cliente.

Como diria Jack London, num de seus estupendos contos: “Eu, eu, eu quero existir! A nota dominante de todo o universo vivo!”.

 

 

 

 

 

Bancas de vizinhança

No Plano Piloto de Brasília, as bancas de jornal fazem parte da unidade de vizinhança, senão no sentido Urbanístico estrito, por certo no sentido largo – o de ter uma função comunitária. Poderia eu estar fazendo proselitismo em causa própria, e até estou, mas sustentada em vasta e cuidadosa pesquisa de campo feita pela arquiteta Camila Glycério, como trabalho de conclusão de curso. Em 2011, Camila percorreu as 97 bancas do Plano Piloto, a maioria delas em funcionamento. Deixou-se levar por um incômodo: por que as bancas de revista de um sítio que é patrimônio da humanidade são tão descuidadas – “é um paradoxo da estética da cidade”, observou.

O estranhamento levou a jovem estudante a propor “algo com uma linguagem mais próxima do que a arquitetura e o urbanismo de Brasília representam”. Antes, porém, de projetar um conjunto de novos modelos de banca, Camila esquadrinhou cada uma das pequenas construções à entrada das superquadras e descobriu que dentro e em torno do mobiliário desajeitado se estabelecem relações de vizinhança inacreditáveis para Brasília, a cidade que até hoje muitos consideram gelada como as águas do Ártico. E, o mais incrível: a decadência das publicações de papel ajudou a moldar a nova função urbana dos jornaleiros. “As bancas se emanciparam da venda de notícias impressas e incorporaram em si um papel social ainda maior: a de serem os olhos, o ponto de encontro e o posto de conveniência com o benefício da confiança”. Não é raro, conta Camila, que os jornaleiros guardem chaves dos apartamentos, emprestem dinheiro aos moradores, vigiem as crianças. No Plano Piloto, as bancas são “a pracinha da igreja das cidades do interior”. Elas atraem famílias no fim de tarde, idosos pela manhã, crianças na volta da escola.

A partir dessa constatação, Camila Glycério projetou novos modelos de bancas de revista para que elas “comportassem harmonicamente tanto o potencial gregário como a linguagem modernista da cidade onde elas se instalam”.  Além disso, era importante solucionar espacialmente as funções do comércio de vizinhança. Tudo foi projetado com materiais contemporâneos. Os projetos são modulares, de montagem rápida e sem canteiro de obras. As portas são pivolantes e os expositores, móveis. A ideia é replicar os projetos para todo o Plano Piloto mas falta investimento. O  jornaleiro tem condições de custear a nova banca e as construtoras não se sentem atraídas num investimento de vizinhança.

O trabalho de fim de curso de Camila Glycério traz na capa a foto do projeto que ela fez para a Banca da 308 Sul.

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Fotos: Camila Glycério

Brasília tem sede

Há cinco dias abancada à entrada da 308 Sul, vi a cidade passar por aqui. Alunos de jornalismo da UnB, guias de turismo, uma professora da escola-parque, um índio, uma israelense, uma francesa, uma paraense, vários nordestinos, antigos moradores da quadra, estudantes da escola-classe, pequenos leitores de gibi (!!!), amigos jornalistas e jornalistas amigos. E Lucio, o joão-de-barro. Oscar anda sumido.

Com tamanha recepção, tinha tudo pra botar banca, mas entendi que há uma Brasília querendo ficar junto. Muitas Brasílias estrepitando ideias, inventando modos de significar e resignificar  a cidade, seguindo as pegadas de Lucio e Oscar, de Athos e Burle Marx, e de todos quantos fizeram desta uma espécie única de cidade.

Brasílias, porém, isoladas, que estão tentando – e não poucas vezes têm conseguido – se encontrar. Da 308 Sul, ouço dois estudantes de jornalismo procurando uma saída para a angústia de terem escolhido uma profissão em agonia. Ouço uma brasiliense cantar doces músicas infantis com letras que descrevem o Plano Piloto.

Da 308 Sul, vejo as crianças pulando na piscina da escola-parque e os skatistas descendo a quadra – só vão parar na 108. Os vovôs do skate brasiliense desceram pelo asfalto em frente à banca até lá embaixo.

Cedinho, antes das sete, a igrejinha já está lotada – cadeiras do lado de fora – para a primeira missa do dia. Quando dá fome e sobra tempo como uma fatia de pizza Dom Bosco e um copo pequeno, americano, de mate gelado. (“Não aceitamos cartões”).

Brasília tem sede e não é só de chuva.

Três gerações e uma banca

Quando Val e Márcio chegaram à Banca da 308, trouxeram no colo um bebê de três meses, a caçula Mariana. Para atender os clientes, improvisavam um berço de colchas num canto da pequena construção de alvenaria. No fim dos anos 1990,  jornais e revistas de papel eram o pão quente diário da informação.

O pai de Val, o cearense Gerardo Alves Vasconcelos, é de uma família de jornaleiros.  Boa parte das bancas do Plano Piloto já esteve sob o domínio dos Vasconcelos e até hoje pelo menos meia dúzia deles estão em atividade.

Seu Gerardo demorou a se abancar na entrada de uma SQ. Antes disso, ajudou a construir o Itamaraty, teve bar no Cruzeiro, foi caminhoneiro até que um dia, já cinquentão, se cansou da peleja bruta e decidiu aquietar os ossos numa banca de revista, onde o trabalho parecia menos cansativo.

Deu o caminhão e recebeu um troco de 300 mil cruzeiros pela banca. Durante 17 anos,  habitou o quadradinho à entrada da 308, desde manhãzinha até o escurecer. Pouco antes de completar 70 anos, passou o negócio para a filha e o genro.

Márcio e Val criaram os filhos Guilherme e Mariana entre os blocos A e D da 308, debaixo de um flamboyant, na esquina da calçada larga, de bloquetes de cimento, diante de um orelhão que até hoje resiste à imposição devoradora do celular. O bebê de três meses já está com 17 anos.

A família Vasconcelos está deixando a 308 Sul neste fim de semana.  Se eu, que os conheci há menos de um mês, sentirei saudades, que dirá os moradores.  A maior preocupação de Márcio, o marido de Val, era saber se eu continuaria a entregar as revistas e os jornais aos velhos clientes – há deles que já chegaram aos 90 anos. Seu Lima, do Bloco A, está com 101.

É ou não é uma unidade de vizinhança?

Mariana, Gerardo e Val / foto: cristina ávila