O anarquista e os cinco centavos

Um anarquista amigo meu, dos muitos novos amigos da minha vida de jornaleira, me disse que eu, nos meus anos de Crônica da Cidade, fazia da vida um texto.

Bingo!

Tive um pouco de raiva dele. Como assim, eu é que deveria ter articulado essa frase. Eu estava indo nesta direção, nas minhocações recentes, e ele, catapluft, sai na minha frente e me resume antes de mim. Adorei, mas odiei.

Do lado de fora da Crônica da Cidade, a vida ficou insípida. Trabalhosa, surpreendente, movimentadíssima, mas em estado de suspensão.

Não era porque estava ruim. Era porque eu não sabia viver sem um texto pra me sustentar. O texto vivia por mim.

Precisei me divorciar dele, divórcio abrupto e litigioso, porque não desejado por ambas as partes, para – sem meu maridão provedor, protetor e dominador – eu chegar ao mundo por inteiro, possivelmente pela primeira vez.

Agora, sem ele, era eu comigo mesma. Começar de novo e contar comigo, como na música.

Tenho aprendido, e é dos aprendizados, um dos mais importantes, a lidar com o dinheiro. Com o salário sagrado na conta todo mês, eu não sabia o valor do dinheiro. Eu sabia que não sabia, mas não sabia o que fazer com esse não saber.

O que me leva a uma cena de Meu nome não é Johnny, filme e livro inspirados na biografia de João Guilherme Estrella, traficante de classe média do Rio de Janeiro, que atuou nas décadas de 80 e 90. Preso, Johnhy diz que precisava da cadeia para, finalmente, se libertar do tráfico. De outro modo, não conseguiria.

Eu precisava ficar sem o salário para saber o valor do dinheiro. Sempre fui bem paga pelo meu trabalho, disso não posso reclamar (aliás, tenho muito pouco, quase nada, a reclamar de meus ex-patrões). 

Hoje, naqueles 23 metros quadrados, cada cinco centavos tem valor – de exatos R$ 0,05. Uma das primeiras coisas que jornaleiros amigos me disseram, e que repetem entre si, é que em banca de revista se ganha centavos. Como hoje, boa parte delas sobrevive da venda de balinhas, picolés, refris e parentes próximos, a renda surge de grão em grão.

Depois que saltei do texto para a vida, pude lidar também com o dinheiro dos outros, com o modo como cada um lida com o dindim. Cada um tem o próprio jeito de tratar o dinheiro e esse jeito tem tudo a ver com  o modo como a pessoa se relaciona com a vida. (Os psicanalistas amigos meus vão me odiar por essa análise chinfrim).

O dinheiro tem um poder simbólico de magnitude que não consigo alcançar. Não é à toa que 1% da humanidade acumula riqueza maior que a dos outros 99% . Para que mesmo uma pessoa precisa de tanto dinheiro se nem se ela vivesse 1 mil anos daria conta da gastança? Vai saber. O que dá pra perceber é a patética orfandade dos viciados em acumulação de bens. Como se quisessem comprar a eternidade.

Na banquinha, de cinco centavos em cinco centavos, vou somando Conceições vividas às Conceições escritas. Tem sido bom.

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