Seu Carlos

Observe o homem que todas as manhãs limpa o laguinho do Burle Marx, na 308 Sul. Barba branca, roupa surrada, seria um velho e dedicado jardineiro, e é. Mas é também um servidor público do Banco do Brasil, graduado e aposentado. Tem os braços e o tórax rijos, o que sugere dez ou mais anos a menos do que o tanto de vida já vivida. Carlos Alberto Albuquerque de Macedo Costa já venceu oito décadas e mais um pouco. Quem o conhece desde os primeiros tempos de Brasília sabe de seu despojamento, iguaria servida com discreta e firme altivez.

Seu Carlos é guardião não apenas do laguinho precioso que a Caesb, de vez em quando, ameaça deixar à míngua. O mineiro de Conquista tem na memória o mais detalhado inventário do paisagismo da quadra-modelo. Identifica cada uma das espécies plantadas no retângulo, sabe a idade e o comportamento das hoje maduras árvores de troncos robustos e copas portentosas. Conhece o que está acima e abaixo da terra.
Ele me conta e me mostra, por exemplo, que ao lado da banquinha existe um salão subterrâneo três vezes maior do que os meus 23 metros quadrados. É uma caixa d’água construída pelo Banco do Brasil para compor um sistema auto-suficiente de irrigação dos jardins e gramados. Está abaixo do chão do jardim do bloco D, o único de quatro andares e apartamentos de 100 metros quadrados e dois quartos.

Poucos anos, não mais que dois, depois de pronta a superquadra, o Banco do Brasil transferiu a manutenção do paisagismo para a Novacap que, segundo conta seu Carlos, retirou as duas bombas de irrigação e a caixa deixou de ter serventia. A água continua lá, imagina o jardineiro, como um poço arqueológico do começo de Brasília. A construção subterrânea tem uma ante-sala – talvez maior do que a banquinha – onde os jardineiros da Novacap até hoje guardam equipamentos.

Quando começou a ser construída, entre o fim do anos 1950 e começo de 1960, a SQS 308 tinha uma senhora salvaguarda: destinava-se a abrigar os servidores do então poderosíssimo Banco do Brasil. O Banco Central não havia sido criado e o BB, portanto, era O banco. “Os outros eram tamboretes”, diz seu Carlos, repetindo um chiste da época. Juscelino, lembra-se o jardineiro, dizia que era preciso trazer para Brasília a cúpula da Presidência da República e o Banco do Brasil. “O resto vem atrás.”

Daí se explica por que a 308 Sul é a quadra que tem todos os equipamentos urbanos que Lucio Costa projetou para as unidades de vizinhança, conjunto de quatro quadras que teriam a autonomia de pequenos bairros modernos.

Além de ter jardim de infância, escola classe, escola parque, praças, laguinho, Igrejinha, biblioteca próxima, cinema bem perto, clube de vizinhança na esquina, conjunto cultural na 508, a 308 tem, debaixo da terra, uma caixa d’água do tamanho de um pequeno apartamento.

Ao saber da descoberta arqueológica, um jovem cliente da banca sugeriu: “Dá pra esvaziar e fazer festa!”. Ou, quem sabe, um museu vivo da memória candanga da 308 Sul. Ou qualquer coisa que couber na imaginação de uma cidade moderna e já cheia de segredos.

 

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3 comentários sobre “Seu Carlos

  1. Voto por UM MUSEU. Dos tantos segredos, como dizes, de Brasília. E que o Sr. Carlos seja o Relações Públicas. E que e que e que… Que Estórias o Sr. Carlos contar ia! … … … Morei nesta Quadra e neste Bloco; foi uma curta temporada, mas prazerosa, porque a 308 é mesmo inigualável: há um Guardião da Paz nesta Quadra… Quem sabe… o Sr. Carlos!!!!! E Que Bela e Tocante Crônica, Conceição! (O que o Correio nem sabe que perdeu…) Siga em frente, catando e encontrando diamantes, afinal… estes são eternos.

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  2. Conceição,
    Embora você não me conheça, já me sinto sua amiga. Sou moradora da quadra há 3 anos, e com meu olhar estrangeiro, de goiana, esquadrinho todos os cantinhos, todas as delícias desse paraíso brasiliense, muitas vezes esquecidos pelos moradores que, muitas vezes, nem sabem do privilégio de morar aqui. Felizes aqueles que sabem apreciar o que há de rico e raro no mundo! Que possamos apreciar este “modus operandus” de viver por muito, muito tempo!! um grande abraço da sua cliente, Maíra

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