Gil e Fran

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Nem nos meus mais doces devaneios, poderia inventar um Gil e uma Fran ao mesmo tempo na minha vida. Gilberto de Souza, 22, e Franciele Alves, 20. Fran é filha de marceneiro com cuidadora de idosos, Gil, de servidor público com costureira. São meus mais importantes parceiros na banquinha. Fran quase não é mais. Amanhã, ela toma o ônibus para Goiás Velho, ou Cidade de Goiás, como preferem os goianos. Vai fazer Química na Universidade Federal de Goiás, campus da antiga capital.

Fran tem resistência sertaneja – nasceu em Montes Claros,  norte de Minas , onde a Terra treme,  a temperatura chega aos 40 graus à sombra e os pequis são carnudos e de sabor ainda mais intenso que os de Goiás. Franciele veio para Brasília disposta a um tudo ou nada: deixou a família boquiaberta e veio estudar para o Enem e tentar uma vaga numa universidade pública. Conhecia um casal que a hospedou até que encontrasse trabalho e moradia.

Veio morar comigo, para ajudar a cuidar de minha mãe. Acabou sendo minha principal parceira na banca. Durante semanas, nós duas carregamos todas as revistas da banca de dentro para fora e de fora para dentro, até que a reforma ficasse pronta. Fran nunca reclamou de nada. Sorria, ria e gargalhava nos muitos apertos que nós vivemos.

Miúda e aparentemente tímida, Fran esconde  tenacidade e  sabedoria raras para quem acabou de sair da adolescência.

Depois de um ano de muita ralação, de persistência e paciência, Fran vai começar a viver, como ela mesma diz. Veio sozinha para Brasília e sozinha foi para Goiás, fez matrícula, arrumou lugar para morar e trabalho. Diz que vai sentir falta da banquinha, e eu fico toda-toda.

Gil é límpido como um olho d’água. Tem o coração aberto como se nunca tivesse tido uma decepção. Nasce novo a cada dia. Mesmo quando se atrasou para chegar à banca porque tinha sido assaltando no ponto de ônibus no Novo Gama. (Gilberto sai de casa às 4h30 para não perder a hora e não pegar congestionamento). Puseram-lhe um revólver na cabeça, levaram os documentos e “sete reais, dona Conceição, sete reais!”. O celular ficou onde estava: entre o zíper e a pele.

Se Fran vai embora amanhã,  Gil também não demora a deixar a banquinha. Está fazendo o curso de brigadista e vai prestar concurso para bombeiro militar. Não dorme de noite preocupado com as provas. É casado, não tem filhos: “Quero me estruturar primeiro”.  Brinca de vídeogame com o sobrinho nos fins de semana. É evangélico da Igreja Universal, porém jamais fez nenhum proselitismo religioso ou julgamento moral – não que eu tenha ouvido. Mas desconfia que o relógio de parede tem o “caperoto” no corpo. Vive caindo sem razão aparente. Atrasa, adianta. Parece ter vida própria.

Se deixar, Gilberto gasta todo o salário comprando livros da banca. Ele se apaixonou por um deles, o “Uma luz na história”, biografia do engenheiro Joffre Mozart Parada escrito pela Nina Tubino. Sozinho, descobriu o primeiro mapa geopolítico do Distrito Federal, que Joffre desenhou com o também engenheiro Janusz Gerulewicz com a demarcação aproximada das fazendas do quadradinho. Giberto Já vendeu uns três exemplares da biografia, só de mostrar ao cliente a sua incrível descoberta.

Acampada no meio da rua, sigo descobrindo anjos caídos das nuvens. E como elas, eles vão embora.

 

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