O corpo e a cidade

São quatro as escalas do meu habitar o mundo: o corpo, a casa, a cidade e a natureza. São os meus residencial, bucólico, gregário e monumental. Em cada um deles, sou uma. É na soma de todos eles que me certifico do meu lugar no mundo – um mesmo corpo ocupando vários lugares no espaço e, em cada um, um modo de existir.

É no contato do corpo com ele mesmo, com a casa, com a cidade e com a natureza que eu me percebo. Não preciso pensar para existir, basta que eu ocupe o concreto do corpo, da casa, da cidade e de tudo o que nos acolhe, o universo que um Lucio Costa divino inventou.  Existo, logo posso pensar.

Faz algum tempo, estava nunca cadeira de dentista, tomando um monte de anestesia para uma cirurgia demorada e complicada, quando a assistente do dentista teve a delicadeza de abrir as persianas para que eu pudesse ver o céu. De outra vez, num exame ecográfico de rotina, deu-se o mesmo. Nas duas vezes, foi o azul do dia que me tranqüilizou.  Já não me importava tanto o que viria. Eu estava viva, aqui e agora. Ali e naquele momento.

É por isso que, todas as manhãs, quando abro o estojinho laranja e me encaixo no fundo dele para começar a peleja, confirmo o meu existir. Há um lugar físico, o cruzamento dos meus eixos – do corpo e da cidade – que me reinventam. Antes eu também existia, mas agora esse existir é inescapavelmente concreto. Como se eu fosse o pedreiro da minha construção.

Em qualquer lugar aonde eu for, será no encontro do corpo com a cidade que estarei viva. Antes e depois, será só um vácuo. Foi a cidade, Belém, Goiânia e Brasília, que me salvou. Digo no singular porque é a condição de cidade quem me salva. Como se eu fosse um pescador de miúdas urbanidades. E nós, brasilienses, sabemos o quão árduo é existir no vazio e na monumentalidade.  Um pescador perdido no mar. Terrível, porém fundante. Quem experimentou a perdição nas vastas águas de Brasília nunca mais existirá sem elas.

 

 

 

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4 comentários sobre “O corpo e a cidade

  1. Sou uma pessoa paciente… e gosto de sê-lo. Não perdia uma só de suas Crônicas no CB. Esperei (não sei se houve outra anterior a esta, porque meu note andou paradinho); sei que abro (e me abro) para Esta. Falo (do tanto que vivencio semelhante) e Calo (diante da redondeza do Escrito. Vivendo há 55 anos em Brasília (profundo o meu amor por Esta Cidade, tão apenada e ao mesmo tempo sempre resgatada por Você, isto dizendo comprovo quando falas do perder-se … ” nas vastas águas…” Meu carinho e admiração, Conceição. Não demora e chegarei aí para abraçá-la. Mouna

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