Jack London e a 308

 

Entra um espanhol na banca. Terá algo próximo aos 80 anos. Usa suspensório e bengala. Percorre com os olhos o pequeno espaço, pega, abre e paga um salgadinho de criança, pergunta se sou a nova dona do lugar, diz que chegou a Brasília em 1957 e se despede. Já a caminho da 108, onde mora, volta e comenta: “A bengala é só charme”.

A tragédia ambiental de Mariana, a omissão do Estado, o cinismo da Vale, os ataques a Paris, a guerra mundial contra o pior que há nos homens, tudo parece em suspenso. Embora, que ironia, esteja numa banca de revista, não serão as publicações em papel que me darão notícias do mundo de lá.

De Mariana e de Paris escorrem lama, sangue e medo. E a esquina da entrada da 308 é uma maresia real. Só dói quando entro nas redes e nos onlines. Na banca, é tudo tão miudamente cotidiano que perco a dimensão das tragédias desses tempos terríveis.

Diria Clarice que estou numa doce prisão ao ar livre. Doce prisão – embora o Doce tenha sido devorado pela lama que já chega ao mar.

Tenho meu exato tamanho. Estou na esquina, no vértice de um ângulo de 90 graus, numa calçada larga e plácida por onde a vida passa no feitiço do tempo. Estamos em 2015, mas também estou no finzinho dos anos 50 e começo dos 60.

Estou rodeada de Lucio, mas também de adolescentes, estudantes das escolas próximas, públicas e particulares, que fazem da 308 a calçada do melhor tempo de suas vidas. Descem de skate em frente a banca, penduram-se nas árvores tortas da Praça do Cogumelo, sentam-se no chão dos pilotis – ainda se namora nos pilotis!

Sempre teremos as superquadras.

Longe de ser uma utopia realizada, até porque elas não se realizam. As superquadras são o futuro do passado. Elas ainda são projeções de um modo de vida que não se realizou plenamente.

Os terroristas querem destruir a alegria, o bem viver. As mineradoras continuam querendo devorar a Terra, toda ela; e o Estado continua fazendo de conta que existe.

Na banquinha os dias são menos amargos.  Talvez seja porque a rotina do ir e vir se impõe sobre os grandes acontecimentos.  Ainda sou jornalista, mas aqui sou mais balconista, recepcionista, contabilista, carregadora, compradora, varredora, limpadora, observadora, escutadora. Sou muitas outras, tantas que nem sabia que era.

Outro cliente, morador da quadra, me dá conselhos, me alerta para os demasiados riscos de ser empreendedora. Teme que eu esteja iludida – “Você não acha que isso aqui dá dinheiro, né, Conceição?”. Me alerta para 0 pendura: “Fiado quebra o comércio”.

Nesta sexta, foi adiante: “Li a matéria sobre você e a banca. Você parece magoada com o jornal onde trabalhava”, e prossegue antes que eu possa dizer algo: “Deixa eu te dizer uma coisa: mágoa não te leva a lugar nenhum”. Os olhos dele se enchem de água, e ele vai embora.

Os meus também ficam rasos d´água. Me investigo e tenho vontade de chamar o novo amigo de volta: “Não queira demais de mim. E se sua mulher te deixasse depois de 20 anos de casamento? A mágoa é inevitável, humana”. Depois passa, e tudo se ajeita.

Não é a mágoa que me move, meu querido cliente.

Como diria Jack London, num de seus estupendos contos: “Eu, eu, eu quero existir! A nota dominante de todo o universo vivo!”.

 

 

 

 

 

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3 comentários sobre “Jack London e a 308

  1. Uau! Conceição, até que enfim de encontrei novamente com suas belas crônicas sobre a Cidade que amo. Parabéns pela coragem e determinação, que certamente lhes trarão grandes alegrias. Você merece tudo do melhor!

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