Bancas de vizinhança

No Plano Piloto de Brasília, as bancas de jornal fazem parte da unidade de vizinhança, senão no sentido Urbanístico estrito, por certo no sentido largo – o de ter uma função comunitária. Poderia eu estar fazendo proselitismo em causa própria, e até estou, mas sustentada em vasta e cuidadosa pesquisa de campo feita pela arquiteta Camila Glycério, como trabalho de conclusão de curso. Em 2011, Camila percorreu as 97 bancas do Plano Piloto, a maioria delas em funcionamento. Deixou-se levar por um incômodo: por que as bancas de revista de um sítio que é patrimônio da humanidade são tão descuidadas – “é um paradoxo da estética da cidade”, observou.

O estranhamento levou a jovem estudante a propor “algo com uma linguagem mais próxima do que a arquitetura e o urbanismo de Brasília representam”. Antes, porém, de projetar um conjunto de novos modelos de banca, Camila esquadrinhou cada uma das pequenas construções à entrada das superquadras e descobriu que dentro e em torno do mobiliário desajeitado se estabelecem relações de vizinhança inacreditáveis para Brasília, a cidade que até hoje muitos consideram gelada como as águas do Ártico. E, o mais incrível: a decadência das publicações de papel ajudou a moldar a nova função urbana dos jornaleiros. “As bancas se emanciparam da venda de notícias impressas e incorporaram em si um papel social ainda maior: a de serem os olhos, o ponto de encontro e o posto de conveniência com o benefício da confiança”. Não é raro, conta Camila, que os jornaleiros guardem chaves dos apartamentos, emprestem dinheiro aos moradores, vigiem as crianças. No Plano Piloto, as bancas são “a pracinha da igreja das cidades do interior”. Elas atraem famílias no fim de tarde, idosos pela manhã, crianças na volta da escola.

A partir dessa constatação, Camila Glycério projetou novos modelos de bancas de revista para que elas “comportassem harmonicamente tanto o potencial gregário como a linguagem modernista da cidade onde elas se instalam”.  Além disso, era importante solucionar espacialmente as funções do comércio de vizinhança. Tudo foi projetado com materiais contemporâneos. Os projetos são modulares, de montagem rápida e sem canteiro de obras. As portas são pivolantes e os expositores, móveis. A ideia é replicar os projetos para todo o Plano Piloto mas falta investimento. O  jornaleiro tem condições de custear a nova banca e as construtoras não se sentem atraídas num investimento de vizinhança.

O trabalho de fim de curso de Camila Glycério traz na capa a foto do projeto que ela fez para a Banca da 308 Sul.

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Fotos: Camila Glycério

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3 comentários sobre “Bancas de vizinhança

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